Por Ademar Batista Pereira,
O Brasil costuma discutir política olhando para eleições. Mas o problema mais profundo está no exercício cotidiano do poder. E aqui não estamos falando apenas de políticos.
Estamos falando de todos que ocupam uma função pública, do atendente ao mais alto magistrado. Todos, sem exceção, são servidores. E essa palavra, no Brasil, perdeu parte do seu significado.
Servidor deveria ser aquele que serve. Na prática, muitas vezes, o cargo passa a servir a quem o ocupa. Essa inversão não acontece apenas nos grandes escândalos. Ela aparece no cotidiano. No atendimento que não acontece, na decisão que demora, no processo que se arrasta, na regra que se aplica para uns e se flexibiliza para outros.
É o pequeno poder. Aquele que não aparece nas manchetes, mas define a experiência real do cidadão com o Estado.
Quando o servidor se vê como dono da função, e não como responsável por ela, o sistema inteiro perde eficiência. O cidadão se distancia, o serviço piora e a confiança desaparece. Mas há um segundo problema, igualmente relevante. Mesmo quando há boa intenção, muitas vezes falta direção.
O Brasil carece de projetos claros de país, de Estado e de cidade. Falta continuidade. Cada gestão começa quase do zero. Planos não atravessam mandatos. Políticas públicas são interrompidas, reinventadas ou abandonadas conforme o ciclo político.
Sem direção, até o bom servidor se perde. Sem um projeto estruturado, o esforço individual não se transforma em resultado coletivo. Trabalha-se muito, mas avança-se pouco. O Estado se movimenta, mas não progride.
Governança não é apenas controlar. É dar sentido. É alinhar pessoas, estruturas e decisões em torno de objetivos claros, que ultrapassem governos e interesses momentâneos.
Isso vale para o país. Vale para os estados. Vale para cada cidade. O cargo público não pode ser um espaço de privilégio. Precisa ser um espaço de responsabilidade, e responsabilidade exige direção.
O Brasil não precisa apenas de mais servidores comprometidos. Precisa de um sistema que saiba para onde ir. Enquanto o poder for exercido sem propósito claro, e o serviço público sem compromisso com resultado, qualquer reforma será parcial.
E talvez a pergunta mais importante não seja quem governa. Mas se sabemos, de fato, para onde queremos ir — e se estamos dispostos a servir a esse caminho.
*Ademar Batista Pereira é presidente do Instituto Destino Brasil.





