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Biblioteca não ensina a ler

20/02 | Artigos

O Brasil celebra o Dia Nacional da Biblioteca em 09 de abril, reafirmando a importância desses espaços para a educação, a cultura e a formação cidadã. A data é simbólica e necessária. Mas talvez seja justamente nela que devamos fazer uma pergunta incômoda: de que adianta termos bibliotecas obrigatórias se mais da metade das crianças brasileiras não aprende a ler adequadamente?

Não se trata de desvalorizar a biblioteca. Ao contrário. Trata-se de recolocá-la no lugar certo.

O país convive com um paradoxo evidente. Há pressão por bibliotecas em todas as escolas, campanhas de incentivo à leitura, distribuição de livros e discursos apaixonados sobre o hábito de ler. Ao mesmo tempo, avaliações nacionais mostram que milhões de crianças chegam ao fim dos primeiros anos escolares sem compreender o que leem. Algumas decodificam palavras. Muitas não compreendem textos simples. Outras sequer chegaram a esse ponto.

A leitura não começa no livro.

Começa na aprendizagem real da leitura.

Sem isso, a biblioteca vira cenário — bonito, bem-intencionado, mas inócuo. Um espaço cheio de livros para quem ainda não tem a chave que abre as portas do texto. Não é a estante que forma leitores. É o processo.

Outro equívoco recorrente é tratar a leitura como algo que se impõe por decreto. Obriga-se a biblioteca, obriga-se o acervo, obriga-se o projeto. Mas hábito não se impõe. Hábito se constrói na relação entre humanos.

O incentivo à leitura é, antes de tudo, uma experiência familiar e afetiva. Crianças aprendem a gostar de ler quando veem adultos lendo, quando alguém lê para elas, quando o livro está associado a vínculo, escuta e presença. A escola pode — e deve — incentivar, apoiar, orientar e abrir caminhos. Mas não substitui a relação humana que transforma leitura em desejo.

E há outro ponto essencial: quem aprende a ler de verdade, lê em qualquer lugar. Na biblioteca, sim. Mas também em casa, no celular, no jornal, no rótulo, no mundo. A biblioteca é espaço de aprofundamento, descoberta e silêncio fértil — não solução mágica para uma alfabetização que falhou.

Celebrar o Dia Nacional da Biblioteca é importante.

Mas mais importante é reconhecer que sem alfabetização consistente, leitura vira discurso vazio.

Talvez o melhor tributo às bibliotecas seja garantir que toda criança brasileira aprenda, de fato, a ler. Só assim esses espaços deixarão de ser obrigação legal para se tornarem aquilo que sempre deveriam ser: lugares vivos para leitores reais.

*Esther Cristina Pereira é pedagoga, psicopedagoga, professora, diretora da Federação Nacional das Escolas Particulares (FENEP) e diretora educacional do Instituto Destino Brasil.

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