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Quando a Liberdade vira distração

20/02 | Notícias

Por Ademar Batista Pereira,

Algumas universidades privadas começaram a proibir o uso de celulares durante as aulas. A medida gerou reações imediatas. Uns chamam de autoritarismo. Outros defendem como necessidade.

Mas talvez estejamos olhando para o lugar errado.

O debate não é sobre tecnologia. É sobre educação — não a educação formal da universidade, mas aquela que aprendemos antes dela: em casa, na convivência e na forma como fomos ensinados a lidar com limites. 

Liberdade não nasce pronta.

Ela se aprende.

Aprende-se quando a criança entende que não pode ter tudo na hora que quer. Quando descobre que esforço vem antes de recompensa. Quando percebe que responsabilidade não depende de fiscalização constante.

Universidade é espaço de aprofundamento intelectual. Não deveria ser o lugar onde alguém aprende, pela primeira vez, que foco importa. Se um jovem precisa que a instituição o impeça de usar o celular para conseguir prestar atenção, talvez o problema não esteja na regra — esteja no processo formativo anterior.

Vivemos uma cultura do imediato. Tudo é rápido, curto, estimulante. Redes sociais são projetadas para capturar atenção. O prazer vem em segundos. O esforço, quase nunca é exigido.

Mas construir futuro é o oposto disso.

Sem autocontrole, sem disciplina interna e sem capacidade de concentração, liberdade vira distração permanente. E distração permanente compromete projetos de vida.

Chamamos isso hoje de “soft skills”: autonomia, responsabilidade, gestão do tempo, foco. Mas essas competências não surgem por decreto. São fruto de educação familiar, convivência social e exemplos cotidianos.

Um jovem que sempre teve tudo à mão, que nunca precisou esperar, que nunca enfrentou frustração, tende a ter mais dificuldade em lidar com ambientes que exigem concentração e esforço. Não por maldade. Por falta de treino.

Os números ajudam a dimensionar o problema. A evasão no ensino superior brasileiro é elevada — em muitos cursos, mais da metade dos ingressantes não conclui a graduação.

Parte dessa desistência tem razões econômicas evidentes. Mas há também um componente formativo: estudantes que chegam à universidade sem base sólida, sem disciplina de estudo e sem preparo emocional para sustentar um projeto de longo prazo tendem a abandonar o caminho diante das primeiras dificuldades.

Proibir celulares pode ser medida paliativa. O ideal seria que ela fosse desnecessária.

A verdadeira questão não é tecnológica nem institucional. É formativa.

Isso revela que a discussão sobre celular em sala de aula é apenas a superfície de algo maior. Não se trata de controle institucional, mas de preparação humana para enfrentar esforço, frustração e responsabilidade.

Educar para a liberdade é ensinar que escolha tem consequência. Que atenção é recurso valioso. Que o futuro não se constrói em atalhos.

Liberdade sem responsabilidade é apenas impulso.

Liberdade com maturidade é projeto de vida — e começa muito antes da universidade.

 

*Ademar Batista Pereira é Presidente do Instituto Destino Brasil.

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