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COP30 acabou. E o Brasil perdeu a chance de falar a verdade sobre si mesmo

03/12 | Artigos

Por Ademar Batista Pereira

Terminou a COP30. Passaram chefes de Estado, diplomatas, ONGs, empresários, celebridades, caravanas e narrativas. Houve discursos eloquentes, compromissos generosos, anúncios de fundos e programas.

Mas, quando a poeira baixa, sobra uma sensação incômoda: o Brasil desperdiçou uma oportunidade única de usar o próprio palco para dizer a verdade sobre si e construir um plano real.

Porque, convenhamos: a COP30 aconteceu no lugar errado, no tempo errado e com o foco errado. O Brasil poderia ter mostrado ao mundo seu maior patrimônio, a natureza viva:

  • A Amazônia real.
  • O Pantanal pulsante.
  • O Cerrado ameaçado.
  • A Mata Atlântica que resiste.

Poderia ter mostrado seus acertos: décadas de controle do desmatamento, uma matriz energética limpa, um patrimônio ambiental ainda entre os mais protegidos do mundo. Mas também poderia, e deveria, ter mostrado seus fracassos:

  • a miséria convivendo com floresta,
  • cidades sem saneamento básico,
  • rios que entram limpos e saem poluídos,
  • lixões a céu aberto,
  • violência ambiental urbana,
  • a falta de habitat digno para milhões.

Nada disso apareceu. O palco não serviu para encarar a realidade, mas para repetir o que as conferências vêm dizendo há três décadas.

Em vez de uma exposição honesta, tivemos uma COP30 encaixotada numa área que representa exatamente o contrário da narrativa ambiental: calor extremo, concreto, precariedade urbana e ausência de natureza. Talvez o único elemento ambiental presente fosse justamente a falta dela.

Enquanto isso, o Brasil deixou de fazer a pergunta que mais importa: “O que vamos fazer, de verdade, para melhorar a vida das pessoas — e não apenas a nossa imagem no exterior?”

Porque, aqui, desenvolvimento nunca significou necessariamente destruir natureza. E proteção ambiental, por outro lado, nunca significou proteger a vida de quem vive nos territórios.

A COP30 poderia ter sido a virada:

  • apresentar um plano nacional baseado em habitat, saneamento, arborização, rios vivos e economia local;
  • mostrar ao mundo que proteger natureza não é discurso — é infraestrutura humana, energia limpa, esgoto tratado, lixo coletado, cidade arborizada, escola que ensina sustentabilidade na prática;
  • conectar clima com pobreza, urbanismo com dignidade, território com futuro.

Mas o Brasil não mostrou nem o que sabe, nem o que precisa aprender. Ficou no meio do caminho — no discurso. Agora que as luzes se apagaram, resta uma última chance: o pós-COP30. É nele que um país sério prova se estava interessado em propaganda ou em projeto.

Se quisesse, o Brasil poderia transformar a COP30 em:

  • um programa de renaturalização das cidades;
  • um pacto nacional por saneamento real;
  • um plano para rios urbanos;
  • um protocolo de segurança climática para eventos extremos — como os tornados recentes;
  • uma política de habitat que una saúde, urbanismo e economia.

Tudo isso é possível. Tudo isso é urgente. E nada disso depende de uma conferência internacional. Depende do que sempre dependeu: vontade política, visão de país e coragem de entregar futuro — não discurso. Talvez esse seja o verdadeiro legado da COP30 para o Brasil: o lembrete de que, enquanto buscamos aplausos do mundo, seguimos atrasados em cuidar da nossa própria casa.

*Ademar Pereira Batista, Presidente do Instituto Destino Brasil

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