Tornados no Brasil: tragédia anunciada ou descuido permanente?
No dia 7 de novembro de 2025, um tornado de grande intensidade atingiu o município de Rio Bonito do Iguaçu (PR). Casas foram destruídas, árvores arrancadas, vidas interrompidas.
Foi mais um episódio em uma sequência que já não pode ser chamada de coincidência: desde 1948, o Brasil registrou pelo menos oito grandes tornados — Canoinhas (SC, 1948), Itu (SP, 1991), Nova Laranjeiras (PR, 1997), Palmital (SP, 2004), Indaiatuba (SP, 2005), Guaraciaba (SC, 2009), Xanxerê (SC, 2015) e, agora, Rio Bonito do Iguaçu (PR, 2025).
Mesmo separados por décadas, esses eventos parecem seguir uma mesma lógica geográfica. Será coincidência?
- Uma rota natural de colisão
Ao traçar os locais no mapa, percebe-se que quase todos os eventos do Sul se alinham em uma faixa latitudinal comum, entre o centro do Paraná e o oeste de Santa Catarina — uma espécie de rota de encontro entre massas de ar frias vindas da Antártica e massas quentes e úmidas da Amazônia.
É nessa transição que o céu se transforma: a energia térmica acumulada durante o dia encontra o ar frio da noite, e o equilíbrio se rompe.
- A altitude e o relevo importam
Os tornados brasileiros mais intensos ocorreram em áreas de 600 a 900 metros de altitude, planaltos e vales intermediários — nem serras altas nem planícies baixas. Essa combinação favorece o cisalhamento de ventos verticais, condição típica para o surgimento dos tornados. Além disso, o relevo canalizado do oeste catarinense e sudoeste paranaense, com vales orientados no sentido nordeste–sudoeste, atua como uma espécie de funil natural, intensificando a força dos ventos.
- Distância do mar e efeito continental
Todos os episódios ocorreram entre 400 e 700 km do litoral, em áreas de interior continental, onde o ar quente se acumula durante o dia e é abruptamente empurrado por frentes frias vindas do sul. Esse choque térmico é o combustível da destruição.
- Um ciclo que se repete
Há um intervalo médio de 9 a 10 anos entre grandes eventos. Não é um número mágico, mas um padrão digno de atenção. Se reconhecêssemos esse ciclo, poderíamos criar protocolos de atenção, planos de evacuação e normas de construção, especialmente na faixa entre Guarapuava (PR) e Chapecó (SC) — áreas recorrentes nos registros.
Um país tropical, mas despreparado
O Brasil é um país tropical, de dimensões continentais. Fenômenos atmosféricos intensos não deveriam ser surpresa. O problema não é o clima — é a ausência de preparo. Enquanto o Caribe convive com furacões anuais e possui protocolos consolidados, nós ainda reagimos com improviso.Não há planos municipais de contingência climática, nem mapeamento oficial de áreas vulneráveis. Tudo se repete: vento, destruição, solidariedade e esquecimento.
O que falta: ciência e responsabilidade pública
O Brasil precisa estudar seus próprios fenômenos naturais. Os registros são dispersos, sem consolidação estatística e sem uso em políticas públicas. Falta um mapa nacional de risco climático, com cruzamento de dados meteorológicos, topográficos e históricos. Não é alarmismo: é prevenção. Planejar é proteger.
Uma questão humana
Todo tornado deixa marcas muito além das estatísticas. Deixa famílias desabrigadas, escolas destelhadas e sonhos suspensos. Essas tragédias não são inevitáveis — são fruto da falta de planejamento. E, no Brasil, planejar ainda é o maior desafio.
Conclusão
Os tornados brasileiros não são sinais do fim do mundo. São alertas de que a natureza segue seu curso — e nós ainda não aprendemos a acompanhá-lo com responsabilidade. Não se trata de mudar o clima, mas de mudar a atitude. Como costumo dizer, a água não fura a pedra porque é mais dura, mas porque é persistente. É hora de sermos persistentes com o conhecimento, o planejamento e o respeito à vida.
*Ademar Pereira Batista, Presidente do Instituto Destino Brasil e Diretor da Federação Nacional de Escolas Particulares (FENEP).





